A flora

“Talvez seja impossível restaurar a Mata Atlântica…(entretanto) Mesmo o que resta é indescritível em termos práticos e imensamente complexo. Um botânico pode fornecer listas de suas árvores; nas faixas mais diversas da Mata Atlântica, há até oitocentas espécies— um número ponderável, comparado às poucas dúzias encontradas nas florestas temperadas da América do Norte ou Europa”

Warren Dean

A Mata Atlântica que um dia revestiu quase todo o solo carioca, apesar de muito reduzida, ainda constitui-se em um dos mais diversificados ecossistemas do planeta. Uma rápida caminhada pela Trilha Transcarioca encanta pela improvável harmonia do caos formado por tantos troncos diferentes, coloridos em múltiplos matizes de verde, aqui e ali tonificados com o amarelo e o roxo dos ipês.

A partir de 1550, esse paraíso outrora muito mais luxuriante começou a ser repetidamente ceifado. Nessa data, o Governador Geral Tomé de Souza restringiu a extração de pau-brasil no país ao Rio Grande do Norte e ao Rio de Janeiro. Os navios que aqui vinham extrair madeira chegavam a ficar na baía de Guanabara por dois meses, escolhendo os melhores espécimes, para levá-los à Europa.

Mais tarde, a partir de 1565, com a fundação da cidade do Rio de Janeiro, os correligionários de Estácio de Sá foram premiados por sua participação na luta contra Villegagnon com vastas sesmarias. Principiou então um longo e inexorável processo de desmatamento das áreas de baixada, onde foi plantada cana-de-açúcar e capim para pasto.

No início do século XVIII, a cana foi substituída pelo café como esteio econômico da região. Em pouco tempo, as encostas outrora poupadas da fúria humana, foram devastadas para dar lugar à rubiácea. Tamanha incúria criou um ambiente desolador. Todos os anos, demoradas queimadas destruíam mais mata para dar lugar a novas fileiras de cafezais. Relatos dessa época dão conta de semanas a fio em que o Rio de Janeiro ficava submerso sob espessa camada de fumo.

Não tardou que a antiga paisagem luxuriante, visível das janelas da cidade, fosse substituída por um triste quadro de morros pelados.

A natureza não tardou em rebater as agressões. A partir de 1840, os mananciais começaram a secar e faltou água potável no Rio de Janeiro. Como solução, os grandes do Império decidiram empreender um reflorestamento que devolvesse às cabeceiras dos rios da Serra da Carioca suas matas. Tratou-se de épico esforço que produziu uma floresta secundária que conhecemos hoje por Parque Nacional da Floresta da Tijuca.

Em nossos dias, essa unidade de conservação, somada a outras áreas onde a estagnação econômica permitiu que a mata reganhasse algum terreno perdido, formam, juntamente a bolsões de mata primária, o belo acervo ecológico atravessado pela Trilha Transcarioca.

Essas áreas de proteção ambiental abrigam 833 espécies vegetais, sendo 676 típicas de Mata Atlântica, 133 de lagoas e 24 de mangues; constituindo-se em um patrimônio ecológico de grande diversidade.

Entre os espécimes oriundos de Mata Atlântica têm especial relevo a quaresma e suas flores roxas, a aleluia, o ipê-roxo e o ipê-amarelo, a paineira, o jequitibá, a embaúba e o pau-brasil. Isto para não mencionar as bromélias, tão variadas quanto belas nas matas da Trilha Transcarioca. Entre as plantas introduzidas pelo colonizador sobressaem o eucalipto australiano, a mangueira e a jaqueira trazidas da Índia e o capim colonião; uma praga que veio da África a bordo dos navios negreiros, onde servia de cama aos escravos.

Muita gente tem prazer em passear observando a vegetação e identificando cada um dos espécimes localizados ao longo do caminho. Infelizmente, no Brasil ainda são muito escassas as publicações didáticas que, através da combinação desenho/informação, permitam ao leigo iniciar-se nesse delicioso passatempo.

No âmbito do Rio de Janeiro, existem alguns livros que servem para minorar essa carência.. Listados abaixo, estão alguns deles; os dois primeiros podem ser usados como guias visuais, já que trazem fotos ou desenhos das plantas; os outros são recomendados pela sua riqueza de informações:

 

As Mais Belas Árvores da Mui Formosa Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Cecília Beatriz da Veiga Soares. Editora Nova Fronteira.

Calendário Permanente da Floresta da Tijuca. Dorée Camargo Corrêa. EGL Editora.

Parque Nacional da Tijuca. José de Paula Machado. Editora Agir.

A Floresta da Tijuca e a Cidade do Rio de Janeiro. Paulo Bastos Cezar e Rogério Ribeiro de Oliveira. Editora Nova Fronteira.

 

Para quem tiver interesse na história da Mata Atlântica como um todo é indispensável a leitura do excelente livro de Warren Dean:

 

A Ferro e Fogo. Warren Dean. São Paulo: Companhia das Letras,