A fauna

… Nas florestas há uma grande diversidade de animais selvagens de boas carnes como veados e corças e javalis… um certo animal chamado quati. É também muito abundante um certo animal que os selvagens chamam de tapiira (anta)… Por fim, o tucano… tendo um bico quase tão grosso e comprido como o resto do corpo.

André Thevet, 1556

 

Relatos dos primeiros visitantes do Rio de Janeiro contam que aqui habitavam diversas espécies de animais. Segundo os religiosos franceses Thevet e Léry, em um simples passeio na mata era sempre possível ver alguns desses bichos.

Ao que tudo indica, os primeiros séculos de colonização, mesmo com a destruição das florestas de baixada não implicaram em uma grande redução da variedade de espécies. Após a chegada da Família Real em 1808, todavia, a cidade aumentou muito sua população. Novas formas de pressão à vida selvagem logo apareceram.

Entre os novos habitantes havia grande quantidade de nobres que tinham por passatempo a caça. Dom Pedro I à frente deles, dava o exemplo e o tom de um esporte sanguinário, que logo viraria moda. De acordo com relato de Maria Graham, o futuro Soberano desde menino já se embrenhava nas matas próximas ao Palácio de Santa Cruz à cata de animais para alvejar: “passa o tempo em caçadas ligeiras”.

Mais tarde, já Imperador, D. Pedro costumava presentear a Marquesa de Santos com os animais que abatia, como se podee depreender pelo trecho de carta endereçada a Dona Domitila:

“Fui hoje ver as grandes plantações que tenho e, topando alguma caça, cacei e logo a destinei para a imperatriz e mecê. Assim, aceite-a , meu benzinho, e igualmente o coração saudoso.
Deste seu amante fiel e
constantemente desvelado,
O Demonão

P.S. amanhã pretendo mandar-lhe mais e melhor caça.”

A caça, antes restrita às necessidades alimentares e de proteção aos rebanhos logo, transformou-se em mania nacional. No século passado, todos caçavam, ainda que fosse simplesmente por esporte.

Tal frenesi exterminador, associado ao advento café, baixou em muito as populações de animais selvagens nas proximidades da cidade. A rubiácea, ao derrubar vegetação para dar lugar ao plantio, subtraiu mais habitat aos animais. Segundo Dean, em 1845, Freire Alemão já dava como desaparecidos das cercanias do Rio de Janeiro os caititus, as antas, os veados, as onças e pelo menos uma espécie de macaco.

Ainda assim, demorou muito para que chegássemos ao estágio atual no qual grande parte das espécies um dia existentes no Município encontram-se extintas. Charles Ribeyrolles, em 1848, afirma ter visto espécimes de preá e Burmeister, em 1850, fala de grande número de jacarés. Tais observações contudo prosseguiram em curva de frequência descendente. Não sem razão. Na segunda metade do século XIX, apesar do reflorestamento da Tijuca, não se testemunhou um fenômeno semelhante no que toca ao reino animal.

Ao tempo em que Archer plantava suas mudas no Alto da Boa Vista, Gobineau relata procissões em que os figurantes infantis desfilavam com “pedrarias na cabeça e, nas costas, asas de penas de papagaios azuis e vermelhas. Um procedimento comum, visto que sobre o manto do próprio Imperador havia uma murça de plumas de tucano.

Se os animais de caça rareavam, o esporte não dava sinais de recesso. Ainda segundo Gobineau, em relato de 1869, até mesmo o intelectual e pouco esportivo Dom Pedro II, costumava gastar algumas horas atrás de espécimes da nossa fauna: “No dia seguinte, imaginou montar a cavalo para caçar antas em plena floresta virgem”.

O ritmo de abate prosseguiu tão veloz que, na primeira metade do século XX, pouco restava nas montanhas mais próximas ao núcleo urbano. Somente na então longínqua Zona Oeste, segundo Magalhães Corrêa, ainda existiam algumas espécies de maior porte, entre as quais, destacava-se a onça. Também naquela parte do Município, contudo, já chegava armado de espingarda o implacável predador humano. Em seu livro, Sertão Carioca, Corrêa ainda tentou alertar as autoridades para essa covarde atividade exterminadora. Infelizmente seus esforços foram em vão.

Nos oitenta anos que nos separam do relato de Magalhães Corrêa, sumiram definitivamente de nossas matas quase todos os animais de grande porte; e, ainda assim, seguem os caçadores a agir impune e livremente.

Incrível é que o que sobrou ainda é suficiente para regozijar os olhos do passeante comum. Continua variada a quantidade de espécies que podemos encontrar em um dia de passeio pela Trilha Transcarioca. Infelizmente, não temos mais corças, onças ou jacarés mas, ao passear pelas nossas matas, o excursionista atento (e silencioso) ainda terá oportunidade de ver extensa variedade de bichos. Segundo dados recentes do IPP, o Município serve de habitat para 107 espécies de mamíferos, 53 de anfíbios, 32 de répteis e 481 de pássaros (número excepcionalmente grande, visto que a Europa inteira abriga 680 espécies de pássaros).

Entre os mamíferos, ainda são frequentes os macacos, que são de três tipos: principalmente o macaco prego, nativo da Mata Atlântica e o sagui estrela, natural do Nordeste e introduzido no Rio pela mão humana. Mais recentemente, em 2015, o bugio e a cotia foram reintroduzidos na Floresta da Tijuca por uma equipe liderada pelo professor Fernando Fernandez. Além disso, é possível encontrar na floresta preguiças, gambás e esquilos-caxinguelê. Outros mamíferos existentes no trajeto da Trilha Transcarioca, mas cuja observação é um pouco mais rara, são o cachorro do mato, o guaxinim, o tatú e o tamanduá mirim.

Entre os pássaros, os de mais fácil observação são o beija flor, o gavião, a coruja, o joão-de-barro, o bentevi, o pica-pau e o tucano, reintroduzido por Adelmar Coimbra na década de 1960 .

Entre os anfíbios, encontramos diversos tipos de lagartos, mas o que mais assusta são certamente as cobras. Os naturalistas já chamavam a atenção para o número de serpentes, como podemos ler no depoimento do viajante inglês George Gardner, feito em 1836,: “Ainda que no Brasil não haja tantas espécies de cobras venenosas como seus próprios habitantes supõem, são bastante frequentes entre os escravos empregados nas plantações os casos de picada”.

Em nossos dias, as matas ligadas pela Trilha Transcarioca continuam a abrigar diversos tipos de cobras. Não se deve, entretanto, encarar isso como um grande problema. Como bem observou Gardner, a maioria das serpentes não é peçonhenta e quase todas elas tenderão a fugir do homem uma vez que sintam sua presença, só atacando quando se sentirem ameaçadas.

Víboras, em geral, não atacam as pessoas gratuitamente. Ao contrário, elas só mordem quando se sentem acuadas, são provocadas ou inadvertidamente pisoteadas. Portanto, a possibilidade de um trilheiro atento ser picado por uma serpente venenosa é quase nula. Por menor que seja essa possibilidade, contudo, ela deve ser encarada com a maior seriedade. Certifique-se que seu Guia de Primeiros Socorros tenha um capítulo sobre picadas de cobra e leia-o atentamente antes de sair de casa. Além disso, verifique qual é o hospital mais próximo da trilha a ser percorrida que dispõe de soros específicos para picadas de serpentes.

Tributariamente, verifique se o seu Guia de Primeiros Socorros tem informações sobre picadas de aracnídeos e insetos, bem como sobre as reações alérgicas a essas mordidas. Não saia de casa para caminhar no mato sem ter se informado extensivamente sobre esses assuntos.

De volta ao reino de todos os animais, o mercado editorial brasileiro é carente de uma publicação completa que permita identificar a totalidade dos bichos das florestas cariocas através de desenhos ou fotografias. Alguns livros, entretanto, retratam vários de nossos animais:

 

Guia de Observação de Aves do Parque Nacional da Tijuca. Ivandy Castro-Astor, Ie Claudia Bauer. Rio de Janeiro: Amigos do Parque Nacional da Tijuca, 2011.

Calendário Permanente da Floresta da Tijuca. Dorée Camargo Corrêa. EGL Editora.

Parque Nacional da Tijuca. Carlos Manes Bandeira. Makron Books.

Ornitologia Brasileira. Helmut Sick. Nova Fronteira.